Contos
As bonecas

A pensão parecia vazia e a mãe daquela menininha linda de cabelos cacheados e olhos verdes sorriu. Já estavam viajando a um bom tempo e se aproximava a hora do almoço. A senhora que as atendeu exibia um semblante calmo e, embora aparentasse uma idade avançada, possuía uma aura jovial e de grande vigor.
- Bom dia, queridas - disse ela abrindo um sorriso à porta quando atendeu mãe e filha. - Que belo vestido branco essa menina veste! E essas rosinhas bordadas nele são lindas como você!
- Filha! - exclamou a mãe e correu logo em seguida para o quarto.
- Hora do almoço...
- Bom dia - respondeu a mãe da criança, de pele
morena como a filha. - Diga oi a essa senhora, querida, e agradeça pelo elogio!
- Oi... Obrigada - respondeu a menina, timidamente.
- Podem entrar. Querem um quarto?
- Ah, não, somente queremos almoçar.
- Oh, sim. Logo estarei colocando a mesa.
O lugar parecia ter uma limpeza fora do comum. A mãe
da menina acharia difícil encontrar qualquer poeira ali.
- Você possui inquilinos aqui?
- Oh, não. Por enquanto não. Estamos em uma
temporada que os visitantes não aparecem muito. Nos dias festivos, mais para o
fim do ano, é que a alegria reina nessa casa vazia. Ela se enche de energia...
De boa energia...
- Então a senhora mora sozinha?
- Sim, eu moro. Meu marido faleceu há alguns anos.
- Me desculpe, eu não queria...
- Não se preocupe. Ele teve uma boa vida. Sinto sua
falta, claro, é meio solitário aqui, mas não me entristeço de falar nele... Mas, na verdade, minhas únicas companhias são as minhas queridas bonecas.
- Bonecas? - perguntou a menina.
- Sim querida - respondeu-lhe a senhora com outro
sorriso. - Você gostaria de vê-las?
- Ah, não quero incomodar - disse a mãe.
- Que isso, você ficará para o almoço, não é?
- Sim, ficaremos.
- Então venham, vou lhes mostrar.
Elas entraram em um quarto bem decorado com papel de
parede com flores claras pintadas. Havia ali três grandes estantes, com muitas
bonecas de porcelana de todo o tipo. Cada uma possuía um rosto diferente e
vestia um tipo de vestido. Também havia bonecos de meninos, igualmente de
porcelana. A mãe e a filha ficaram maravilhadas.
- Que coleção linda a senhora tem. São incríveis as
expressões delas... Tão reais!
- Que bom que gostou, todos dizem isso - disse a
senhora contente. - Venha comigo, deixe-a aí. Tenho que colocar a água pra
ferver.
- Filha, não toque nelas! Tá bem, querida? -
disse-lhe a mãe antes de sair.
A menina ficou próxima a uma das estantes e foi
caminhando e observando cada boneca, pousando com delicadeza a sua mão delicada
em seus vestidos. Ela então parou diante de uma delas, de pele branca como a neve.
Sorriu, olhando a boneca, e disse:
- Que linda você é...
Então, uma lágrima brotou dos olhos da boneca e
desceu pelo rosto frio e endurecido. O som abafado de lamúrios começou a surgir
de todos os lados. Pareciam ao mesmo tempo distantes e ao pé do ouvido.
- Vocês... Estão tristes? - disse a menina, olhando
para as prateleiras, assustada. Os choros e gemidos de tristeza aumentavam. -
Por que estão tristes?
Uma após a outra começaram a derramar lágrimas dos
olhos. Vozes, muitas vozes se confundiam e diziam sempre as mesmas palavras:
"Fuja! Vá embora!", "Não fique aqui!", "Saia!
Saia!". Outras pediam ajuda, e gritavam. Gritavam. E choravam mais e mais.
"Saia!", "Vá embora!", "Nos ajude!", "Não
nos deixe aqui!". As estantes começaram a tremer, os objetos a balançarem
e caiam um atrás do outro no chão. Outros voavam por toda a parte e se
estilhaçavam nas paredes. As vozes a cercavam, a sufocavam. A menina abaixou-se
com as mãos sobre a cabeça e deu um grito.
Estava tudo em perfeitas condições. A quietude
reinava ali e nada estava fora do lugar, a não ser uma boneca de porcelana de
bruços no chão: usava um lindo vestido branco com rosas. A mãe se aproximou da
boneca, e abaixando-se a pegou. Os cabelos da boneca escorregaram para longe de
face gélida. Dois olhinhos verdes vidrados olhavam para o nada. Uma lágrima
desceu pela superfície morena do rosto da boneca ao exclamar abafado de dor da
mãe. Atrás da mulher, a doce senhora segurava um rolo de massas ensanguentado.
Um sorriso distorceu o seu rosto e ela disse em meio a choros de tristeza e
horror das bonecas:
- Hora do almoço...
(Jonatha Luiz Teixeira)
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