Croniesias do Cotidiano no Arte & Manha
Espelho, espelho meu.
Que atire a primeira pedra aquele que nunca quis defender sua opinião, de modo que ela fosse incontestável. A todo tempo usamos dos mais variados artifícios para defender aquilo que nos é conveniente. Para isso, fazemos uso da retórica e da oratória. Para aqueles que acham que somente políticos e advogados precisam defender uma causa, é preciso prestar um pouco mais de atenção ao dia-a-dia. Em uma conversa corriqueira de bar, já é possível notar pessoas defendendo suas opiniões em um determinado assunto, seja ele qual for. Uma discussão com idéias conflitantes nada mais é que um jogo: vencerá aquele que melhor souber articular argumentos para defender seu ponto de vista.
Nessa linha de raciocínio desprenderá outro ponto importante, que é oconhecimento. Quando se quer defender uma idéia, independentemente da situação é preciso saber do que se está falando. Acontece que muitas vezes, por saber muito do assunto em questão, a pessoa acha que sua opinião é inquestionável, o que não é incompreensível. É preciso, então, cautela para não se tornar o dono da verdade.
A construção do conhecimento é fundamental em todos os aspectos. Uma pessoa instruída, que sabe conversar de vários assuntos, dominando-os, com certeza estará na frente dos demais. Como saber até que ponto se deve construir uma opinião, de modo que ela seja tão “lapidada” que não permita nenhum retoque?
Manter um diálogo com alguém que não aceita como verdade nada que venha de fora, se torna entediante. É comum as pessoas rotularem aqueles que sabem muito como “chatos e arrogantes”. A chave está em não impor uma opinião inquestionável, e sim em ter argumentos suficientemente fortes para mostrar que sua opinião se não inquestionável, é bem fundamentada e de difícil rebate. Fazemos uso, então, da persuasão. Persuadir não é sinônimo de impor. Quem impõe se torna o “o dono da verdade”, quem persuade ganha o jogo.
Outro elemento ainda não citado, porém de muita importância é a autocrítica. Quem melhor que você mesmo para se avaliar? Achar que sua opinião é única e incontestável também tem um toque de arrogância. Pensar, repensar, ouvir uma idéia conflitante e analisá-la com cuidado faz parte da construção do conhecimento.
Na maioria das vezes, levamos muito tempo para construir uma idéia, e nela agregamos opiniões pessoais, credos, ideologias e outros elementos que nos fazem defende-las com tanta vontade que... Existiria alguém com uma opinião mais bem articulada do que eu? Cuidado. O resultado só será satisfatório se soubermos somar todos os elementos citados (conhecimento pessoal, persuasão, autocrítica...) de maneira que consigam nos tornar não o vilão da história, e sim alguém que tem conhecimento e sabe usá-lo da melhor maneira.
Laura N. Pacheco
o moço do guarda-chuva vermelho
o
telefone tocou quando estávamos sentados um de frente ao outro na sala antiga de
parede amarela e ele gentilmente apagou o cigarro e pediu-me licença para
atender retirando-se ao cômodo vizinho. silencioso como quando nos conhecemos
na biblioteca pública do bairro, o moço do guarda-chuva vermelho falava
pouquíssimas palavras enquanto eu ao longe não conseguia visualizar os seus
trejeitos e pude apenas ficar imaginando se talvez não fosse algum quase amor
sugerido pelas lindas poesias do Neruda que eu lia enquanto o esperava com um
café de punho na sua sala antiga de parede amarela. quando voltou, sentou-se envolvido
por um quase silêncio à poltrona herdada de seu avô. “acho que estou
apaixonado, sabe?, mas não sei se estou pronto ainda”. “pode falar...”, disse-lhe
meio sem jeito e ainda um pouco tímido, mas surpreendido com a entonação de voz
do moço do guarda-chuva vermelho e com o seu olhar palpitante que revelava-me
um desejo incompleto em dividir algo que talvez estivesse guardado apenas
consigo. “conhecia-a há alguns anos, Helena, nunca mais nos vimos. dia desses
ela me mandou flores, foram essas margaridas que estão na prateleira, e desde
então eu não paro de comprar margaridas. não a encontrei e não a tenho
encontrado, recebi apenas algumas cartas e algumas dúzias dessas belas margaridas,
mas sinto que já a amo de alguma maneira”. silenciou-me por completo, eu que sempre
falava muito e que havia surrupiado a sua privacidade quando atendi o telefone
na biblioteca pública, e o silêncio prevaleceu como prevalecia na maioria do
tempo. ele sabia e eu inquieto em meio às suas margaridas entendia que a nossa conexão não estava nas
palavras, mas em uma taciturna compreensão sobre o que era, afinal, a solidão.
havia amor? na certa, duvidávamos. e não tocamos mais no assunto.
trepidante,
absorvi-me em uma sensação de que talvez não fosse ao telefone um quase
amor
sugerido pelas lindas poesias do Neruda, mas um estranho amor autêntico
que existia em Helena porque percebia a sua respiração fugaz mesmo
parecendo-nos impossível novamente o
amor e porque olhei à janela, também, e não tinha mais sol porque já era
noite. garoava, mas era noite de lua cheia e isso talvez pudesse ser
algum sinal e eu sempre apego-me
a sinais como quando apeguei-me aos seus tiques na biblioteca pública
percebendo-o incomodado com a minha presença perguntando sobre as horas.
o
silêncio absoluto tomou-nos novamente, ele me emprestou alguma roupa
para que
eu me sentisse mais confortável e indicou o sofá vermelho como um
possível
lugar para que eu pudesse me encostar. resolveu imergir-se no livro de
contos
que o aguardava desde quando havia se ido o último sol radiante e
amarelo feito ovo e
não trocamos mais nenhuma palavra. era noite de domingo e a primavera já
se
anunciava elegante, me lembro bem, e caímos no sono por ali mesmo. eu no
sofá
vermelho e ele na poltrona herdada de seu avô encostada na parede
amarela da
sala antiga. quando acordei, vi ao lado do telefone uma carta escrita à
mão assinada
por Helena e sorri, pois talvez ela realmente existisse. não tive
coragem de
ler ou tocá-la, sequer, e também não quis acordar o moço do guarda-chuva
vermelho. vesti a minha roupa que havia ficado estirada no cômodo
vizinho, apanhei o livro do Neruda para que pudesse
devolvê-lo à biblioteca pública do bairro e decidi partir caminhando em
silêncio como sugeria-me o encontro com o moço do guarda-chuva vermelho e
em meio à garoa que ainda permanecia intermitente naquela estranha
manhã de primavera. mas não sem antes
regar, uma por uma, todas as suas belas margaridas que se mantinham
intactas na prateleira da sala antiga de parede amarela.
Leonardo Beltrão
A cotação da Liberdade
Segundo o
dicionário Priberam, Liberdade - do latim libertas, -atis - é o direito de
proceder conforme nos pareça, contanto que esse direito não vá contra o direito
de outrem; condição do homem ou da nação que goza de liberdade; franqueza.
Se alguém me perguntasse
qual a sensação que eu mais busquei na minha vida até hoje, eu diria sem pensar
duas vezes: a sensação de me sentir livre. Hoje, em especial, eu parei para
pensar sobre o assunto de uma forma um pouco mais crítica.
Liberdade, embora
muitos pensem assim, não é sair por aí fazendo o que “dá nada cabeça”, como se
diz popularmente. A própria definição do dicionário já nos diz isso: “contato
que esse direito não vá contra o direito do outrem”, o que significa que nossa
liberdade tem, sim, um limite. Então, nem mesmo a liberdade é totalmente livre,
sinto decepcionar você, caro leitor.
Além desse ponto,
existe outra face da liberdade que a maioria, e eu estou incluída nesse grupo,
às vezes se esquece. A cotação da Liberdade. Sim, ela tem um preço. E, muitas
vezes, o preço é altíssimo. O que impede você hoje de largar tudo e seguir em
uma viagem pelo mundo? O que te impede de sair daquele emprego que você nunca
gostou e fazer uma outra atividade completamente diferente? O que te impede de
explorar o máximo da sua liberdade?
Com certeza você
pensou em inúmeras razões para não largar tudo e seguir em uma viagem sem
destino ou abandonar o emprego que você nem gosta. O que nos impede de explorar
o máximo da nossa liberdade é o medo das consequências que isso implica. Só
quem se arrisca, de fato, em explorar a tão desejada liberdade, sabe do que
estou falando. A conta chega logo, cobrando com juros e correções.
Amo ser livre, amo
a liberdade mas hoje, em particular, a cotação da liberdade teve uma alta
inflacionária e a conta chegou altíssima nas minhas mãos. Agora é respirar
fundo e juntar as moedinhas para pagar... Me desejem sorte!
Laura Pacheco
Sem Tocar

A mão que acarinhava, para se defender dos espinhos que a Rosa tanto lhe 'presenteou', deixou apenas sua sombra. Agora a mão não se fere, entretanto a Rosa não pode receber os carinhos da sombra, que lhe cobre, mas não lhe toca.
Jonatha Luiz Teixeira
Som
Lucas de Mello
Amor (a) ti
O espaço entre o
aqui e o chão é a vertigem... Tonteira debruçada no olhar para a vida e não ver
o salto. Um suicídio com arma branca, tão alva quanto a vontade de não estar no
toque, plano-esférico-helicoidal, presente.
Pois o tempo não
verte a saudade do que ainda não foi, não passa o riso tristonho de quem espera
o viver. Cansa-se dele pedindo pelo avital cuja essência inconsistente consiste
em uma orquídea que fenece, não pela falta de cuidado, mas pelo excesso dele.
Planta cativada pelo outro campo... Aquele em que não estivera; não estava.
Impulso...
Em pulsos,
empunhada, empenhada. O desespero gritara como pensamentos perdidos em meio a
noite passada em branco. Fogo brando quase frio. Quase apagado. Pagado o fardo,
a fadiga, o cansaço. Daí o mendigar inconstante por aquilo que –a aparência –
fazia tê-lo, e não tinha. Não.
Chega, então, a
dúvida. Dívida a pagar consigo. Ou a pagar de si. Era apagar de si: a dívida e
a dúvida. Entretanto, indelével que era, ficara. Dívida duvidosa, dúvida cara,
duvidosa dívida, dívida barata. Põe o salto alto, salta sem ele e tira o salto
do salto e põe no alto. Por que não é coisa de criança brincar, uma vez a mãe
ensinara. Incinerara? Chega.
Mas quem? Não,
chega. Não chega, não. Somente pára. Para pensamento, para vertiginosamente o
olhar paralelo ao paralelepípedo. Dispara, todavia, coração em escorregadia
via, devido aos pneus descabelados. Não via a via, todavia, desvia e sal...
Tá. Quase
palavra incompleta, fosse a não idéia de quase sê-la. Serena e bela não era
Raquel, filha de Labão. Portanto, não era poesia, tampouco prosa. Era crônica
sem crônica. Sincrônica. Dessincronizada. Croniesia do desespero. Espero.
Júlia de Mello


Gostei muito pelos detalhes,.
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