Poesias

Sarau Arte & Manha




Ensinamento de Vó

para amar
é preciso comer um saco
de sal junto

e nós
nos amamos
sem nem aquele pote de café
terminarmos.

(Laura N. Pacheco)







joaquim, sem mais nem menos, partiu naquele trem
das três da tarde, com exatamente quatro pertences na mão:
nada que tivesse sido meu em vida e vida.
entretanto, por pura brincadeira desses destinos tortos
atribuí a cada um deles algo que de mim nada tinha.
dentro do pano preto, bordado em roxo verde
dobrado cuidadosamente,
estavam seus bens para a vida toda -
pimentas guardadas com o tempo, fios cobres,
um incenso de canela e, raríssimo, pó de cometa
de anos raiz sem origem certa.

levou junto ao peito como se fosse coração coroado.
pensei que fosse o meu.
não era.

o que eu ofereci em uma bandeja, rodeado por folhas
orvalhadas do jardim
ele deixou na madrugada fria, à espera dos filhotes
de lobos que estavam ali, cantando a lua esperada.

eu não sabia - coração não se oferece.

Bárbara Mançanares






Esta vida intrometida e clichê
como não tinha o que mais inventar
me fez querer ser

Poeta...

incompetente que sou, sobrou-me apenas sonar a cançao alheia

como se eu fosse letra vazia em busca de alfabetos.

Arremedo de trovador, poetastro,

mas feliz de deixar essa tal

Poesia

inerte e incrustada na rocha fosca de seu próprio

óvulo.

Espermatozóica, palavra por palavra, eu pego, atmosfera a dentro,

misturo tudo, remexo com as mãos e sopro até chegar ao útero sedento da solidao do universo ou até bater nos meus cabelos a cair.

Vou seguindo a sina e caço mesmo é chifre em cabeça de cavalo, de prosáico que sou.

De manhã, atiro o coraçao sem asas do milésimo andar;

ele gira, rodopia no ar, cambaleia de tão confiante, romântico demais

e só no final do dia - pois enamorou-se do Sol -,

ele cai-me sobre os ombros

leve como o mundo inteiro de afliçoes, pesadelos, arranha-céus, dinastias

e psicodelia cor de sangue acre a me manchar a pele.

Sangue de Cristo ou do diabo que me carregue.

(Rogério José)






Arquitetos

Desatino em descaminho
Outra vez.

Tez molhada, um incenso...
Rezo em contra-tempos
Que é pra desmarcar as horas do dia.

Espero um silêncio cálido...
Palavras de fim de tarde,
Vendo o  pôr-do-sol em companhia.


Alguém que desperta:

tira as cortinas das janelas
E entreolhares.

Planos de ar... que tetos!
Sofá, cama, mesa de centro:
Madeira de demolição pra construir a vida.

Me aqueço na lareira da tua casa:

Meu desatino,
Meu descaminho...


(Júlia de Mello)






Crime

Hoje acordei imune
Impune
Do crime de matar você
Em mim.

 )Adriana Almeida)







Nascer de novo

dores de parto
marcam minhas contrações
grávida de mim mesma
sinto-me às portas de nascer
as palavras preparam a sala
os utensílios
colocam máscara, luvas,
roupa especial
seguram minha mão
cortam meu peito anestesiado
nove meses de gestação
o coração dilatado
esvazia agora
uma nova vida
dou-me à luz
já andando sozinha
em silente aflição
as palavras, condoídas,
me ensinam a cortar o elo
a princípio o verbo
a enxergar o caminho
da nítida compreensão

(Mônica Fernandes)






Cores Frias

Cores frias
Dias nublados
Olho embaçado
Coração a zero grau.

(Adriana Almeida)







E dobra-se a noite, cegueira do universo;
tal madrugada eterna e torpe, obra de lúcifer,

estender a minha mao e tocá-la é mister

a fim de desmembrá-la toda no meu verso.


Estrelas precipitam no meu sonho; é tarde:

a lua já se impôe, infindo vigilante;

mas send'ela menor que a ambição do infante

todo o brilho, perde, nas luzes da cidade.


Noite terrível, de tudo, testemunha; enfim,

enlouquece uns homens e as chagas de outros sana;

etereo cobertor de grossa lã funerea,



antes de ir, metaforisa-te em mim,

jorra seu sangue negro na História humana

e inspira, trêmula, nas nações, vivas insânias.


(Rogério José)






Ruge

Grite meu grito
Meu canto sem encanto
deite comigo
debaixo da árvore de carne
no vinagre da cidade sem verdades
meus ossos de infinitas fraturas
constroem a altura da escultura
de minha rua escura e crua
pingando meu milagre
de incandescentes tardes
do sol deserto
incrédulo mérito

Eu me viro aqui e este meu langor
toda minhas paz é feita de dor
de quietas felicidades
para sermos iguais
devemos derramar a mesma vida
o sangue nos negros sais
a cômoda ferida atrás da cortina
lúgubre em anoitecidas esquinas.

(Lucas Alvim Tomaz)






Pathos


E cada vez que ele fecha os olhos: um algoritmo
Que vem soprado em desejos aflitos,
Sorrateiro infinito já gasto pelo próprio tempo
Corrosivo...

Incompreender o compreensível é ensimesmar-se
É se apartar da coisa e ainda sê-la
Selando a porta, cerrando os dentes já gastos
Pelo próprio tempo, corrosivo...

Hidrofluoreto de amônio (e a armadura que veste)
Limpador de alma frígida em frigideira,
Esturricada de amor como pedaços de bacon
Encharcados de óleo.

(Júlia de Mello)









Um Blues aos Nós

Adentro-me na imensidão desse quarto vazio
Um quadro-vivo nostálgico de lençóis trocados
Memórias lavadas do que um dia fomos nós

Não falo dos nós-cegos na garganta
Novos integrantes da minha anatomia
Desde que você fechou os vidros do carro
Acelerou e virou a esquina
Num segundo quase eterno de nostalgia

Me refiro a nós
Pronome pessoal
Dado àqueles outrora juntos
Antes da purpurina se tornar pó
Acumulado nas fotos dos porta-retratos
Hoje jogadas em alguma gaveta
De um móvel qualquer

Os planos mudaram, a rotina mudou
O caminho de casa em outras linhas de metrô
Por um momento quase me faz esquecer
Do preço pago por ter tido você

Um ano, dois meses e dezesseis dias
Não sei quantas horas exatamente
Afinal no começo de todo grande amor
O tempo para, e a gente revigora a esperança
E a vida se torna linda aos olhos do pior descrente
O problema é que a gente esquece
Que no final de todo grande amor
O tempo para, e parte d’alma perece.

(Igor Formiga)






Pra quem gosta de se aventurar 
De viajar, de ser feliz e se ausentar 
Basta olhar nos olhos 
Enlouquecer 
Olhar e ver 
Nada melhor que viajar nos sonhos, nos medos 
Desejos e segredos de um olhar. 
Nas mentiras, nas verdades 
Nas vidas e vaidades 
Que um olhar pode levar 
Melhor que qualquer outro lugar 
É repousar à tarde num olhar 
Puro deleite 
E à noite, adormecer 
Sem medo de não acordar 
Mas, caso isso aconteça 
De o sonho se eternizar 
Não tem olhar que não mereça 
Uma lágrima a purificar.


(Nairo Lopes)








o brilho que engana e alimenta
entre esses dizeres da noite
é a música da ausência -
o toque, a fala, o olhar.

em que descaminhos
um caminho errado se faz?

(Bárbara Mançanares)








Ateus, ateus
por vezes
tão Deuses
cuspindo
nas cruzes
mas logo ofendidos
com tantos pruridos
se alguém dá sentido
diverso do seu
rompe-se a linha
da mágica lógica
e paira no mundo
o híbrido anjo
gemendo seu banjo
no céu da retórica

(Wanessa Monteiro de Barros)





como se rabiscasse rodapés
para re-desenhar seu traço
que em palavras cria formas
geometrias desmedidas
co
medidas
mal intencionadas
furiosamente pulando
linha a linha
intrépida
com gosto de sal.

(Bárbara Mançanares)






Pan-teísmo

A poesia da perda é verso que não há em mim.
Pacienciar o silencio à espera.
Despertar partes... devagar...
Enfim, acreditar que um dia as coisas que foram
Hão de sê-las (até o fim) serenas
Na tristeza do poeta
Na vaguidão do interstício
Ou no Amor...
Que Há.

(Júlia de Mello)




Com pés descalços
Piso em brasas
Tuas palavras queimam
A sola da minha alma...

- Adriana Almeida









A pedra, o ocaso e o Amor

Carrega meu mundo nas costas
Minhalma em teu peito
Mochila cheia
Estrada a fora...
Estrados:
Sóis e lençóis
Meu lado ao lado do teu
Te ter paisagem:
De cima da pedra
Adentramos o mundo...
Meu sobressalto sobre o teu parapeito
E paro nele:
Me deparo em você:
Mil pores do sol para sempre, Amor.


Júlia de Mello







Acabaram-se os sonhos
Vejo ruir meus castelos
As horas roem o tempo
E eu...
Eu rôo as unhas...

Adriana Almeida










Poema Interrompido


Poema inter

rompido

quebra

dentro

douvido

rompe

som

destalido

...

quero

quele

se quebre

Poema

este

tão breve

Poema

que

não se escreve

mesmo assim

está

lido. 


Rogério José







Tempestade

sou feita de uma coragem estreita,
dessas que cabem em um dedal de miçangas.
me estico por passadiços seguros, bem sei.
mas é como vivo - nas entrelinhas de qualquer absurdo.
absurdo que for, contando que seja oculto:
passagem aberta para raros.

e foi nessa minha brincadeira de ser brisa
que joaquim apareceu
e colocou na mesa minha condição de vento.

ele queria a tempestade.

Bárbara Mançanares













Sou uma gota que cai sem demora
Uma gota de orvalho na folha de amora
Uma gota que escorre suave no rosto que cora
Uma gota que chega e depois vai embora

Meire Mohallem












Busca


na sua busca
não encontrei senão a mim.
quando olhei milhares de faces caleidoscópicas
iluminadas pelo olho do sol,
e os verdes azuis daquele infinito,

me vi refletida:

não mais pelo espelho
mas pela agua que saía de mim.


Bárbara Mançanares






Disritmia

Intento contra o teu encontro
Um desencontro de reflexos
Sem salto alto.
Agora a não há mais sentido em comprar sapatos.

Retiro estribo, me desenlaço
Um som atonal tudo remonta
À cavalgada.
Disfarço um riso e sigo como se nada tivesse mudado.

Esconder do tempo
A vontade de querer

Júlia de Mello









Palhaço

Chore, infortunado sorriso
ao bis dos guizos
e  línguas de pardais
queime nos vôos dos ciscos
jamais visto
lambe das pedras seus sais

Olhos aguçados, fronte atroz,
fonte vermelha e rija
estrale seus ouvidos entre palmas
esfole sua pele no som de sua voz
sangue diz estes licores de tinta
apenas procurando entre espinhos e britas
alguma pétala de alma

Para ser açoitado até a morte
no espetáculo com languido sorriso
que esmurra escondido
no inferno de cobre
nos odores fortes
de uma única rosa sem corte.

Lucas Alvim Tomaz



6 comentários:

  1. Muito lindo esse espaço,lindo blog...Mais lindo ainda,é ler e poder sentir o toque das palavras na pele.
    Poesia,sentires e viveres traduzidos em palavras...
    Gostei!!!
    Tenho um blog,não são poesias.São sentimentos extraídos.
    Visite-o se possível ^^
    http://asteroidebjm.blogspot.com.br/

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