Sarau Arte & Manha
Ensinamento de Vó
para amar
é preciso comer um saco
de sal junto
e nós
nos amamos
sem nem aquele pote de café
terminarmos.
é preciso comer um saco
de sal junto
e nós
nos amamos
sem nem aquele pote de café
terminarmos.
(Laura N. Pacheco)
joaquim, sem mais nem menos, partiu naquele trem
das três da tarde, com exatamente quatro pertences na mão:
nada que tivesse sido meu em vida e vida.
entretanto, por pura brincadeira desses destinos tortos
atribuí a cada um deles algo que de mim nada tinha.
dentro do pano preto, bordado em roxo verde
dobrado cuidadosamente,
estavam seus bens para a vida toda -
pimentas guardadas com o tempo, fios cobres,
um incenso de canela e, raríssimo, pó de cometa
de anos raiz sem origem certa.
levou junto ao peito como se fosse coração coroado.
pensei que fosse o meu.
não era.
o que eu ofereci em uma bandeja, rodeado por folhas
orvalhadas do jardim
ele deixou na madrugada fria, à espera dos filhotes
de lobos que estavam ali, cantando a lua esperada.
eu não sabia - coração não se oferece.
Bárbara Mançanares
Esta vida intrometida e clichê
(Rogério José)
Arquitetos
Desatino em descaminho
Outra vez.
Tez molhada, um incenso...
Rezo em contra-tempos
Que é pra desmarcar as horas do dia.
Espero um silêncio cálido...
Palavras de fim de tarde,
Vendo o pôr-do-sol em companhia.
Alguém que desperta:
tira as cortinas das janelas
E entreolhares.
Planos de ar... que tetos!
Sofá, cama, mesa de centro:
Madeira de demolição pra construir a vida.
Me aqueço na lareira da tua casa:
Meu desatino,
Meu descaminho...
(Júlia de Mello)
Crime
Hoje acordei imune
Impune
Do crime de matar você
Em mim.
)Adriana Almeida)
Nascer de novo
dores de parto
marcam minhas contrações
grávida de mim mesma
sinto-me às portas de nascer
as palavras preparam a sala
os utensílios
colocam máscara, luvas,
roupa especial
seguram minha mão
cortam meu peito anestesiado
nove meses de gestação
o coração dilatado
esvazia agora
uma nova vida
dou-me à luz
já andando sozinha
em silente aflição
as palavras, condoídas,
me ensinam a cortar o elo
a princípio o verbo
a enxergar o caminho
da nítida compreensão
(Mônica Fernandes)
Cores Frias
Cores frias
Dias nublados
Olho embaçado
Coração a zero grau.
(Adriana Almeida)
E dobra-se a noite, cegueira do universo;
tal madrugada eterna e torpe, obra de lúcifer,
estender a minha mao e tocá-la é mister
a fim de desmembrá-la toda no meu verso.
Estrelas precipitam no meu sonho; é tarde:
a lua já se impôe, infindo vigilante;
mas send'ela menor que a ambição do infante
todo o brilho, perde, nas luzes da cidade.
Noite terrível, de tudo, testemunha; enfim,
enlouquece uns homens e as chagas de outros sana;
etereo cobertor de grossa lã funerea,
antes de ir, metaforisa-te em mim,
jorra seu sangue negro na História humana
e inspira, trêmula, nas nações, vivas insânias.
(Rogério José)
Ruge
Grite meu grito
Meu canto sem encanto
deite comigo
debaixo da árvore de carne
no vinagre da cidade sem verdades
meus ossos de infinitas fraturas
constroem a altura da escultura
de minha rua escura e crua
pingando meu milagre
de incandescentes tardes
do sol deserto
incrédulo mérito
Eu me viro aqui e este meu langor
toda minhas paz é feita de dor
de quietas felicidades
para sermos iguais
devemos derramar a mesma vida
o sangue nos negros sais
a cômoda ferida atrás da cortina
lúgubre em anoitecidas esquinas.
(Lucas Alvim Tomaz)
Pathos
E cada vez que ele fecha os olhos: um algoritmo
Que vem soprado em desejos aflitos,
Sorrateiro infinito já gasto pelo próprio tempo
Corrosivo...
Incompreender o compreensível é ensimesmar-se
É se apartar da coisa e ainda sê-la
Selando a porta, cerrando os dentes já gastos
Pelo próprio tempo, corrosivo...
Hidrofluoreto de amônio (e a armadura que veste)
Limpador de alma frígida em frigideira,
Esturricada de amor como pedaços de bacon
Encharcados de óleo.
(Júlia de Mello)
Um Blues aos Nós
Adentro-me na imensidão desse quarto vazio
Um quadro-vivo nostálgico de lençóis trocados
Memórias lavadas do que um dia fomos nós
Não falo dos nós-cegos na garganta
Novos integrantes da minha anatomia
Desde que você fechou os vidros do carro
Acelerou e virou a esquina
Num segundo quase eterno de nostalgia
Me refiro a nós
Pronome pessoal
Dado àqueles outrora juntos
Antes da purpurina se tornar pó
Acumulado nas fotos dos porta-retratos
Hoje jogadas em alguma gaveta
De um móvel qualquer
Os planos mudaram, a rotina mudou
O caminho de casa em outras linhas de metrô
Por um momento quase me faz esquecer
Do preço pago por ter tido você
Um ano, dois meses e dezesseis dias
Não sei quantas horas exatamente
Afinal no começo de todo grande amor
O tempo para, e a gente revigora a esperança
E a vida se torna linda aos olhos do pior descrente
O problema é que a gente esquece
Que no final de todo grande amor
O tempo para, e parte d’alma perece.
(Igor Formiga)
Pra quem gosta de se aventurar
De viajar, de ser feliz e se ausentar
Basta olhar nos olhos
Enlouquecer
Olhar e ver
Nada melhor que viajar nos sonhos, nos medos
Desejos e segredos de um olhar.
Nas mentiras, nas verdades
Nas vidas e vaidades
Que um olhar pode levar
Melhor que qualquer outro lugar
É repousar à tarde num olhar
Puro deleite
E à noite, adormecer
Sem medo de não acordar
Mas, caso isso aconteça
De o sonho se eternizar
Não tem olhar que não mereça
Uma lágrima a purificar.
(Nairo Lopes)
o brilho que engana e alimenta
entre esses dizeres da noite
é a música da ausência -
o toque, a fala, o olhar.
em que descaminhos
um caminho errado se faz?
entre esses dizeres da noite
é a música da ausência -
o toque, a fala, o olhar.
em que descaminhos
um caminho errado se faz?
(Bárbara Mançanares)
Ateus, ateus
por vezes
tão Deuses
cuspindo
nas cruzes
mas logo ofendidos
com tantos pruridos
se alguém dá sentido
diverso do seu
rompe-se a linha
da mágica lógica
e paira no mundo
o híbrido anjo
gemendo seu banjo
no céu da retórica
por vezes
tão Deuses
cuspindo
nas cruzes
mas logo ofendidos
com tantos pruridos
se alguém dá sentido
diverso do seu
rompe-se a linha
da mágica lógica
e paira no mundo
o híbrido anjo
gemendo seu banjo
no céu da retórica
(Wanessa Monteiro de Barros)
como se rabiscasse rodapés
para re-desenhar seu traço
que em palavras cria formas
geometrias desmedidas
co
medidas
mal intencionadas
furiosamente pulando
linha a linha
intrépida
com gosto de sal.
para re-desenhar seu traço
que em palavras cria formas
geometrias desmedidas
co
medidas
mal intencionadas
furiosamente pulando
linha a linha
intrépida
com gosto de sal.
(Bárbara Mançanares)
Pan-teísmo
A poesia da perda é verso que não há em mim.
Pacienciar o silencio à espera.
Despertar partes... devagar...
Enfim, acreditar que um dia as coisas que foram
Hão de sê-las (até o fim) serenas
Na tristeza do poeta
Na vaguidão do interstício
Ou no Amor...
Que Há.
Pacienciar o silencio à espera.
Despertar partes... devagar...
Enfim, acreditar que um dia as coisas que foram
Hão de sê-las (até o fim) serenas
Na tristeza do poeta
Na vaguidão do interstício
Ou no Amor...
Que Há.
(Júlia de Mello)
Com pés descalços
Piso em brasas
Tuas palavras queimam
A sola da minha alma...
- Adriana Almeida
A pedra, o ocaso e o Amor
Carrega meu
mundo nas costas
Minhalma em
teu peito
Mochila
cheia
Estrada a
fora...
Estrados:
Sóis e lençóis
Meu lado ao
lado do teu
Te ter
paisagem:
De cima da
pedra
Adentramos
o mundo...
Meu
sobressalto sobre o teu parapeito
E paro
nele:
Me deparo
em você:
Mil pores
do sol para sempre, Amor.
Júlia de Mello
Acabaram-se os sonhos
Vejo ruir meus castelos
As horas roem o tempo
E eu...
Eu rôo as unhas...
Adriana Almeida
Poema Interrompido
Poema inter
rompido
quebra
dentro
douvido
rompe
som
destalido
...
quero
quele
se quebre
Poema
este
tão breve
Poema
que
não se escreve
mesmo assim
está
lido.
Rogério José
Tempestade
sou feita de uma coragem estreita,
dessas que cabem em um dedal de miçangas.
me estico por passadiços seguros, bem sei.
mas é como vivo - nas entrelinhas de qualquer absurdo.
absurdo que for, contando que seja oculto:
passagem aberta para raros.
e foi nessa minha brincadeira de ser brisa
que joaquim apareceu
e colocou na mesa minha condição de vento.
ele queria a tempestade.
Bárbara Mançanares
Sou uma gota que cai sem demora
Uma gota de orvalho na folha de amora
Uma gota que escorre suave no rosto que cora
Uma gota que chega e depois vai embora
Meire Mohallem
Busca
na sua busca
não encontrei senão a mim.
quando olhei milhares de faces caleidoscópicas
iluminadas pelo olho do sol,
e os verdes azuis daquele infinito,
me vi refletida:
não mais pelo espelho
mas pela agua que saía de mim.
Bárbara Mançanares
Disritmia
Intento
contra o teu encontro
Um
desencontro de reflexos
Sem salto
alto.
Agora a não
há mais sentido em comprar sapatos.
Retiro
estribo, me desenlaço
Um som
atonal tudo remonta
À
cavalgada.
Disfarço um
riso e sigo como se nada tivesse mudado.
Esconder do
tempo
A vontade
de querer
Júlia de Mello
Palhaço
Chore, infortunado sorriso
ao bis dos guizos
e
línguas de pardais
queime nos vôos dos ciscos
jamais visto
lambe das pedras seus sais
Olhos aguçados, fronte atroz,
fonte vermelha e rija
estrale seus ouvidos entre palmas
esfole sua pele no som de sua voz
sangue diz estes licores de tinta
apenas procurando entre espinhos e
britas
alguma pétala de alma
Para ser açoitado até a morte
no espetáculo com languido sorriso
que esmurra escondido
no inferno de cobre
nos odores fortes
de uma única rosa sem corte.
Lucas Alvim Tomaz


Aeee muito bom!
ResponderExcluirmto bom amei todas !
ResponderExcluirE ta rolando!
ResponderExcluirMto boom
ResponderExcluirMuito boas! Parabéns!
ResponderExcluirMuito lindo esse espaço,lindo blog...Mais lindo ainda,é ler e poder sentir o toque das palavras na pele.
ResponderExcluirPoesia,sentires e viveres traduzidos em palavras...
Gostei!!!
Tenho um blog,não são poesias.São sentimentos extraídos.
Visite-o se possível ^^
http://asteroidebjm.blogspot.com.br/